quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Era a mesma história, o mesmo moletom surrado, o  mesmo vinho barato. Não tinha nada de diferente na cena e a dor ainda grande demais, esmagava os pulmões. E quando ela pensava em pulmões, lembrava do malboro vermelho que ele acendeu naquela tarde quente de Julho ha um século atrás. E por pensar em cigarro, acendia mais um e tragava lentamente pra sentir a fumaça dentro de si e não imaginar mais o quanto é ruim estar vazia.
Não sentir nada é a pior fase do amor. Sentia dor, mas a dor era mais física que qualquer outra coisa. Passou as ultimas 3 horas correndo para tentar fugir das ligações que ele não atendia, do sorriso que ele tinha estampado no rosto e da mão colada a uma outra mão que não era dela. Foda-se ela pensou. Mas continuava ali bem na sua frente.
Era estranho pensar que ele ia se casar. CASAR. Puta que pariu. E o pior é que ele tinha consideração demais por ela pra não esquecer de entregar o convite pessoalmente. Não tem amor que suporte um convite de casamento tão brega e bonito. " ... para nos tornarmos um só perante Deus"...  Tenha paciência.
Paciência e sangue de barata para dizer " Vai ser um prazer te ver casando" e depois " Demorou, mas alguém conseguiu te prender" e ouvir " O amor tem dessas coisas".
Para o Inferno com esse amor. Quem amou foi ela, que passou uma semana sem dormir direito quando ele bateu o carro e foi internado. Ela que deixou a viagem pra Paris de lado porque ele tinha sido promovido no trabalho e não podia viajar. Foi ela que passou o feriado de 7 de Setembro inteiro no velório da mãe dele e não foi acampar com os amigos. E agora " O amor tem dessas coisas" e o ' essas coisas' não era com ela?
O amor não faz o menor sentido, essa é a verdade. Quando foi que tudo acabou dessa forma? Quando ela atirou aliança de plástico pela janela do apartamento? Quando disse que o silêncio dele não podia ser mais importante que o seu e mesmo assim ligou 4 dias seguidos decidida a pedir perdão? E olha, que ela não é do tipo de mulher que pede perdão. Nem que deixa Paris de lado, mas acabou fazendo tudo isso por ele.
Chorou dois meses seguidos, com aquele mesmo moletom, até que decidiu estar curada e ter tomado a decisão certa ao mandar ele sair da sua vida porque os horizontes dele eram pequenos demais perto dos que ela tinha. Bobagem, o único horizonte que ela queria era estar com ele. Mas mandou ele embora, jogou a aliança de plastico rosa pela janelo do 17° andar e foi embora. Ao contrario do que deveria ter acontecido, ele seguiu e ela ficou com as lembranças dos dias e noites em que amou de verdade na vida. Sem egoísmo, sem nenhum egoísmo.
" Ok, ele vai se casar com a mulher mais sem sal que ele podia ter encontrado na vida. Casar na igreja com direito e coral e vestido branco, que bobagem... mas vai ser a ultima vez que vou ver ele, no casamento. Não vou mais falar dele, não vou mais falar com ele. Vou comprar um vestido estupido e ir no casamento essa vai ser a lápide do nosso amor"
Começou  a rir de si mesma, depois de quase uma garrafa de vinho, 3 maços de cigarro e 2 anos de amor, ela riu da própria desgraça. Não da pra fugir, então a única alternativa é encarar. O amor tinha acabado mesmo! Ele ia ser um só perante Deus com outra mulher vestida de branco. Essas coisas do amor, entende?!
Ela pegou o celular e procurou o nome dele na agenda. Começou a chamar. Ela procurou o cigarro, mas ja tinha acabado.Tomou mais um gole de vinho. Sentiu o coração na garganta e então ouviu...
" Alô" - do outro lado...
Definitivamente, ela não era o tipo de mulher que perde, nem desiste ou fica chorando de moletom numa sexta feira a noite.

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