A dois ou três anos atrás…
- Alô? O Kadin está?
- Ele tá no banho, liga daqui a pouco!
- Oi… ele já saiu do banho?
- Olha você ligou aqui não tem nem dois minutos, espera um pouco!
- Sua amiga tá ligando aqui de dois em dois minutos, acho que aconteceu alguma coisa, é melhor você ligar pra ela.
- Alô? Jessy? Tem 5 chamadas suas no celular, isso tudo é saudade?… Pera ai você tá chorando?
- Kadin, meu primo morreu!
- Que? Como assim?
- Ele suícidou! Ele se enforcou!
- Puta que pariu! Eu tenho que ir numa palestra anti-drogas… mas assim que eu sair de lá eu vou ai, fica bem menina, qualquer coisa me liga… pelo amor de Deus Jessy fica bem!
Caralho, um grande caralho! Não conseguia parar de xingar enquanto apático entrou dentro do carro, sem crer que aquilo era de verdade. Um moleque de 12 anos não teria motivos de verdade pra enrolar uma corda no pescoço e se matar, mesmo nos piores momentos de sua vida aquilo era uma coisa que ele nunca cogitou. Caralho, voltava a repetir ele, como ele pode?
Sua vida tinha melhorado tanto, não havia mais problemas com seus pais, seus amigos estavam unidos, tinha ficado com a menina que ele sempre sonhou, não sabia ao certo se gostava dela ou se amava o status que ela concedia a ele, as festas estavam cada mais frequentes, ele chegava a se preocupar como as coisas deram tão certo de uma hora pra outra, até receber aquela ligação. Odiava funerais, duvidou muito que alguem gostasse, mas agora estava no carro indo pra um, teria que ver todos chorando e aguentar aquele clima tão pesado que parecia-lhe um tijolo entrando pelas narinas, teria que consolar sua melhor amiga, teria que escutar berros de pessoas inconformadas e principalmente a dúvida cruel que corroiam todos naquele momento, Porque? O que levaria uma criança daquela idade a tirar a própria vida.
- Kadin…
Ela o abraçou tão forte que fez suas costelas magras estralarem. Fazia muito frio e já era de madrugada, queria falar algo que a fizesse sentir melhor, mas nada podia fazer, nada ia trazer de volta o primo que ela agora não tinha mais.
No outro dia acordou cedo pra ir no enterro, vestiu qualquer camiseta preta e se sentou no chão da cama, havia dormido muito pouco, seu estômago embrulhou só de pensar que teria que voltar no mesmo cemitério que seu irmão estava sepultado. Pensou em desistir, durante anos evitou ir aquele lugar onde um dia tapou a cova de seu irmão, onde pela primeira vez viu seu pai, tão forte e frio, chorar no seu ombro feito uma criança, evitou tocar no nome Victor, mesmo que carregasse ele como sobrenome. Se levantou e foi…
Odiava velórios, funérais e tudo que envolvia uma tristeza que não era sua, porém cemitérios era um lugar que sempre lhe chamavam a atenção, a paz que aquilo tudo lhe trazia, o silêncio… que agora era rompido por gritos e choros, a cova estava aberta e o parentes faziam agora os ultimos votos!
Ele se aproximou e ela o abraçou outra vez, procurou palavras pra tentar amenizar aquilo, foi ai que entendeu… as vezes na vida nós não queremos escutar um vai ficar tudo bem, queremos apenas ouvir um estarei contigo até o final. Ficaram ali até que o caixão fosse tampado.
Estava indo embora, quando parou em frente a um enorme túmulo preto, ficou alguns minutos olhando aquilo, fazia tempo que não “visitava” seu irmão, fugiu por muito tempo de um encontro, não queria admitir pra si que estava acabado, queria conversar com ele de volta, queria ele pagasse sua primeira cerveja, o leva-se na primeira prostítuta, queria ter seu irmão de volta. Lágrimas escorreram por debaixo do óculos escuro… tirou uma moeda de dentro do bolso e colocou sobre a lápide, lembrou ele de quando seu irmão fingia tirar moedas de seu nariz falando que aquilo era mágica, sorriu em meio as lágrimas e foi embora pensando:
- Eu queria muito que você estivesse aqui!
Deus, independemente se ele exista ou não é um cara esperto, ele só escolhe os melhores pra estarem do seu lado. As coisas nunca foram e nem seram as mesmas depois disso tudo, uma amizade foi forjado, feridas abertas e a vida continuava a lhe pregar peças. E que ao final dessa história eu consiga arrancar lágrimas de outras pessoas que não sejam as minhas!"
Olá! Gostei do blog, da historia.. Obrigada por seguir.. Se cuida =**
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